Publicado em Músicas

Como todo mundo aqui já sabe, ontem a MTV Brasil fez seu último programa ao vivo. Foi um evento que consolidou o final do canal sob administração do grupo Abril, que devolve a marca para a americana Viacom, após 23 anos de uso com sede no histórico prédio da Sumaré – o mesmo que abrigou no passado a histórica TV Tupi, onde a essência da televisão Brasileira se consolidou.

A partir de 01 de outubro a “nova MTV” inicia seus trabalhos, com uma abordagem mais pop e uma iniciativa mais eclética de programação. Vai ser grande o trabalho da próxima administração – popularmente, o que se fala é do fim da MTV, e não de seu recomeço.

Entre os desafios da MTV de cara nova, estão esses: aposenta-se a figura lendária do VJ; entram comunicadores e artistas convidados para o comando das novas atrações. A grade será conferida por quem tem TV paga, e esse cenário dos canais fechados tem suas próprias regras e realidade – ainda que as expectativas sejam talvez mais promissoras do que as de TV aberta. Para que a nova empreitada alcance êxito, há todo um plano comercial, de audiência e mídia a ser cumprido. E, o que é para mim o mais complicado, a nova MTV terá de conquistar o coração dos órfãos da MTV de 1990, a que já existe na memória emotiva de milhões de brasileiros.

Por mais excludente que a MTV antiga pudesse ser em termos de audiência e alcance de linguagem, era fato inconteste que ela foi parte integrante da vida de um monte de gente. O telespectador é aquele tipo de pessoa que gosta de situar-se a partir do que é transmitido – TV de domingo tem Sílvio Santos, mulher na TV era a Hebe, Globo tem novela, Record é popular. E MTV era o canal 25 da moçada. Tava lá, ninguém devia tascar. Quem via, quem curtia, eram outros 500... Mas a MTV era a opção jovem de cultura jovem, com gente jovem e linguagem ainda mais hormonal. Mesmo com as mudanças de identidade, mesmo com suas novas empreitadas, nem sempre bem-sucedidas. Ela estava lá, e ao menos daquele jeito ela não estará nunca mais.

Para quem nasceu no final da década de 70, como eu, o início da MTV no Brasil foi um dos episódios mais marcantes da adolescência. Algumas pessoas mais sortudas tiveram filhos cedo e a adolescência desses moleques também foi marcada pela grade do “canal da música”, como era chamado inicialmente. Ou seja, em 23 anos de existência, seguramente duas gerações foram marcadas pelo que dizia e mostrava a Astrid, a Cuca, a Sabrina, a Marina, a Soninha, o Gastão, o Zeca... Os VJ’s descolados que, no fundo, todo teenager queria ter como amigo.

Lembro muito bem do rebuliço que foi a chegada da MTV em terras tupiniquins. Eu tinha 13 anos, e completaria 14 cinco dias depois da estreia do canal. Falou-se muito da novidade na época, e eu e um monte de amigos da escola só tratamos disso por um tempão. Era descolado dizer que você via a MTV. Era agregador, diferente. Havia uma série de coisas sem sentido na programação, como aquelas vinhetas deles que não tinham pé nem cabeça. Mas a gente fingia que entendia, porque ninguém queria admitir a própria ignorância.

Os VJ’s – esse nome e tipo de profissional nasceu com a MTV – falavam com termos jovens e eram um pouco mais velhos do que a gente; alguns tinham cabelos bagunçados e eram mais simpáticos, outros já chamavam mais a atenção da turma mais velha, o que hoje a gente chama de “Ensino Médio”. Tinha a namoradinha secreta de praticamente todos os meninos, a Cuca... E um cara que curtia rock e usava umas camisetas de banda no ar, um tal de Gastão. E haviam, logicamente, os clipes. Muitos clipes!

Hoje toda moçada, e quem mais quiser!, pode ver o que bem entender, quantas vezes quiser, pelo Youtube. Mas em 1990 não era assim – era na MTV que se conferiam os videoclipes. E como eram legais alguns deles, que mega novidade eram muitos deles! A gente contava os dias para assistir na íntegra aquele vídeo que os VJ’s prometiam durante a semana que seria passado no dia tal, na hora X. Todos os teens esperavam. Os mais sortudos podiam gravar com o vídeo-cassete, mas não era a mesma coisa que ver na hora, ao vivo, pra valer.

Com a MTV eu solidifiquei meu amor pelo Public Enemy. Houve um momento em que rolavam muitos clipes dessa minha banda predileta nos programas, e eu dava pulos de alegria quando flagrava um. Na MTV passava o Faith no More e o Guns, e o Guns tinha um clipe que parecia um filme – o “November Rain”. Meus vizinhos, o Fábio e o Neto, curtiam o programa de rock pesado, de metal. E balançavam a cabeça quando viam o Metallica com suas guitarras. Tinha o cara cantando “Informer” numa velocidade maluca, o que deixava a Astrid intrigada toda vez que anunciava o clipe. Todo mundo dançava com o “Deee-Lite” cantando “Grove is in the Hearth”... E por aí vai.

Depois o canal foi ganhando outras caras, falando com novas linguagens. Veio mais entretenimento, menos música, porque a internet começou a matar a MTV. Mas ela foi valente e original, e nos deu a Cicarelli maluca da cabeça aos pés pondo o povo pra beijar na boca e assustando todo mundo com extintores de incêndio. O Mion apareceu como um moleque subversivo que queria tocar o terror rindo de todo mundo na frente de um chroma key. O João Gordo falava palavrões e quase quebrou a cara do Dado Dolabella, para deleite de quem já achava que o playboy merecia umas bolachas! Mais tarde vieram o Adnet, a Calabresa, a Tatá, o Bento, os amigos do humor... E eles detonaram! A MTV já era do mundo, não só da música!

Mas o mundo muda todo dia, e o mundo do entretenimento de massa é um dos piores. E quando ele não dá resultado mais, quando não tem mais alguém suportando bancar, eis que a brincadeira acaba e um ciclo se fecha.

Eu lamento muito pelo fim daquela MTV. Eu gostava demais, era fã. Marcou a minha vida, e eu me sentia bem sabendo que aquele mundo existia ainda, nem que fosse em homenagem aos meu passado.

Confesso algo, ainda: eu sempre quis ser um VJ. Sempre, sempre quis trabalhar com a cara no vídeo na MTV. Mas quando ela começou eu não era ninguém e não sabia como chegar junto, e quando eu me tornei alguém eu não consegui me juntar ao time. Sempre me diziam no canal: quando sair do CQC, se quiser sair, vem pra cá. Vamos te receber de portas abertas! E no final de 2012 veio um convite mesmo, oficial, mas eu não tive nem como ouvir a proposta porque já tinha fechado com a Record...

Mas eu dei entrevista para a Funérea. Apresentei uma categoria no VMB 2011. Fiz um Comédia MTV com o Adnet e a turma toda, ao vivo. Fui em uns 4 ou 5 VMB’s, e em todos me diverti pra caramba, bebi pra cacete e encontrei amigos. E minha irmã, Thais Cortez, minha melhor amiga e sangue igual ao meu, foi uma excelente editora do canal. Ela representou os Cortez nesse sonho, mesmo em outro campo de trabalho.

Na festa de encerramento ontem, do lado aqui de casa, na sede da MTV que acaba daqui a uns dias, vi um monte de gente se abraçando aos prantos com o fim de uma era. Fãs, funcionários, amigos, ex-VJ’s, pilares da casa, gente que fez a história de lá. O Zico Góes. Que cara é o Zico Góes!! O povo tava triste com o fim, mas feliz com a missão cumprida. Eu me comovi com eles e por eles, e entendo emotivamente o que eles estão sentindo.

Por outro lado, 2 dias antes, na festa de apresentação da Nova MTV, da Viacom, eu vi uma chama no olho de algumas pessoas. E havia uma certa energia no ar. O que virá agora, com o desafio do novo?

Em homenagem ao que foi a MTV, que foi tão foda, eu só quero desejar que a nova emissora faça algo tão bom ou ainda melhor do que a antiga – por ela, por seus fãs, por quem sonhou junto, por quem deu o sangue, e até por quem queria ter feito parte mesmo e não fez, como eu.

Valeu MTV da minha adolescência! Boa sorte, nova MTV!

 

Fonte: http://br.noticias.yahoo.com/blogs/rafael-cortez/

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